A aprendizagem que passa pelo corpo

Quando pensamos em aprendizagem, é comum imaginarmos uma criança diante de uma atividade: observando, ouvindo uma explicação, seguindo uma orientação ou realizando determinada tarefa.
Mas a infância nos convida a ampliar essa compreensão.
A criança não aprende apenas quando alguém lhe ensina alguma coisa. Ela aprende quando entra em relação com o mundo.
Aprende quando toca, sente, observa, experimenta, compara, movimenta-se, cria hipóteses, erra, modifica estratégias e descobre aquilo que ainda não conhece.
Aprende quando coloca as mãos na terra e percebe que ela pode estar seca, úmida, quente, fria, compacta ou solta. Quando segura uma pedra e percebe que ela pesa mais do que uma folha. Quando passa os dedos por uma superfície áspera e depois encontra outra lisa. Quando mistura duas tintas e se surpreende com uma terceira cor. Quando bate em diferentes objetos e percebe que cada um produz um som.
Parece simples.
Mas, nesses pequenos acontecimentos, há uma extraordinária complexidade.
Há percepção, memória, comparação, linguagem, imaginação, movimento, pensamento, emoção e construção de hipóteses.
O corpo não é apenas aquilo que acompanha a aprendizagem. O corpo é um dos lugares onde a aprendizagem acontece.
Antes de saber explicar, a criança experimenta
Uma criança pequena talvez ainda não consiga explicar o conceito de textura, mas consegue perceber a diferença entre o liso e o rugoso.
Talvez não saiba formular uma hipótese sobre densidade, mas pode descobrir que uma pedra afunda enquanto um pedaço de madeira flutua.
Talvez não conheça a palavra “transformação”, mas pode observar uma semente germinar, uma fruta amadurecer, o gelo derreter ou uma folha mudar de cor.
Antes de transformar aquilo que percebe em palavras, a criança transforma aquilo que percebe em experiência. É como se o corpo fosse o primeiro laboratório da infância. É nele que a criança testa possibilidades.
Ela aproxima, afasta, aperta, solta, empilha, derruba, mistura, separa, cheira, escuta, observa. E, a cada nova tentativa, constrói relações entre aquilo que já conhece e aquilo que está descobrindo.
Por isso, uma poça d'água pode ser muito mais do que uma poça.
Pode ser um lugar para investigar profundidade, deslocamento, reflexo, temperatura, textura, peso, equilíbrio e movimento.
Um graveto pode ser uma ferramenta de desenho na terra.
Uma folha pode tornar-se uma medida, um objeto sonoro, uma matéria para colagem ou simplesmente algo a ser observado demoradamente.
Quando oferecemos tempo para a criança experimentar, oferecemos mais do que materiais: oferecemos possibilidades de pensamento.
A mão também pensa
Existe uma tendência de separar aquilo que é “mental” daquilo que é “corporal”, como se pensar acontecesse apenas na cabeça e o corpo estivesse ali para executar aquilo que já foi pensado.
Na infância, essa separação faz pouco sentido.
A criança pensa com o corpo inteiro.
Pensa enquanto constrói uma torre e percebe que precisa mudar a posição de uma peça.
Pensa enquanto tenta alcançar um objeto.
Pensa enquanto mistura materiais e observa o que acontece.
Pensa enquanto percorre um espaço desconhecido.
Pensa enquanto dança.
Pensa enquanto desenha.
Pensa enquanto brinca.
A mão que encaixa, o pé que procura equilíbrio, o olhar que acompanha, o ouvido que distingue e a pele que percebe também participam da construção do conhecimento.
Talvez por isso determinadas experiências permaneçam na memória de uma maneira tão profunda. Todos nós guardamos lembranças que não são apenas intelectuais.
Lembramos do cheiro de uma casa, da textura de uma parede, da temperatura de uma tarde, do som de uma música, da sensação de pisar descalço na areia. O corpo arquiva aquilo que vivemos.
E, na infância, esse arquivo está sendo construído o tempo inteiro.
Aprender é também sentir
Como afirma Duarte Jr. (2000), a dimensão estética não se restringe à arte. Ela está relacionada à integração entre pensamento, sentimento e percepção.
Essa compreensão amplia significativamente o nosso olhar sobre as experiências oferecidas às crianças.
Uma experiência estética não é simplesmente uma experiência “bonita”.
Não se trata de preparar um ambiente visualmente impecável, escolher materiais encantadores ou produzir uma atividade digna de fotografia.

A estética está na qualidade da relação que estabelecemos com aquilo que percebemos.
Uma criança diante de uma folha pode simplesmente vê-la.
Mas também pode perceber suas nervuras, observar diferentes tonalidades de verde, sentir sua textura, ouvir o som produzido quando a amassa, comparar seu formato com o de outra folha e perguntar por que algumas estão no chão enquanto outras permanecem nas árvores.
O que mudou?
Talvez não tenha mudado a folha.
Mudou o olhar.
E é justamente aí que reside uma das grandes potências da educação: criar condições para que as crianças possam olhar novamente para aquilo que parecia conhecido e descobrir que ainda há muito a perceber.

O que ela teve a oportunidade de perceber?
Que perguntas nasceram?
Que hipóteses foram construídas?
Que relações foram estabelecidas?
Que sentidos foram mobilizados?
Que possibilidades seu corpo encontrou?
Que marcas aquela experiência deixou?
Afinal, educar não é apenas colocar conhecimento dentro da criança.
É criar encontros suficientemente potentes para que ela possa construir conhecimento a partir do encontro com o mundo.
E quando o corpo participa desse encontro, a aprendizagem deixa de ser apenas informação.
Ela se transforma em experiência.
E experiência, quando vivida com presença, pode permanecer muito depois de a atividade terminar.






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